Direcções para leitores incompetentes.

Direcções para leitores incompetentes.

Diz que é “impossível encontrar os livros nas estantes porque na internet o que se vê são as capas”.
Caro cliente, já experimentou começar a ler as lombadas? Funciona que é uma maravilha, vá por mim.

Diz ela que é “uma escrita muito boa de se ler”.

A minha parte preferida é quando ela hesita na forma de pronunciar Gógol. Obrigada por isto.

Oh rats!

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Do regabofe novecentista.

É de manhãzinha na livraria. Uma senhora entra a correr para vir buscar os Maias, “p’rá filha”. Já com o livro na mão, hesita:

– Olhe lá, isto tem palavrões?

Upa, upa… nem imagina, minha senhora, a pouca vergonha que vai para aí.

 

É o fim da silly season.

Acabaram as férias e a livraria enche-se de alminhas sedentas de listas inteiras de livros que nunca irão ler.

Vem aí a festa.Image

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Shop like a douche.

Espero que estes putos cresçam e acabem a trabalhar numa grande superfície. Ou isso, ou que alguém os apanhe e lhes parta os dentes.

Esses livros demoníacos que corrompem a inocente mente das criancinhas.

Hoje, fui quase fulminada pela ira de uma mãe que me pediu uma sugestão de leitura para uma garotinha de 7 anos que dava os primeiros passos na leitura. Tive a infelicidade de sugerir a colecção da Bruxa Mimi. Entre os olhares indignados e faiscantes e o discurso de como “o Harry Potter e essas abominações do género levam as crianças a acreditar em coisas tão erradas que são pecado e deviam ser proibidas”, lá me deu um sermão sobre como o mundo está perdido e como os “verdadeiros valores” estão em decadência.

Da próxima vez que me pedirem uma sugestão, vou pedir primeiro um relatório de convicções religiosas e morais, não vá o diabo tecé-las. Lamentavelmente, esqueci-me de aproveitar a ocasião para alguns esclarecimentos úteis. Por exemplo, perguntar se seria adequado considerar  recorrer à antiga e virtuosa técnica de lapidação e apedrejar os meus progenitores pela heresia de entregarem, na forma de livros, a minha alma a Lúcifer desde tenra idade. Ou, ainda sobre a mesma questão, que tipo de pedra seria a mais adequada? Brita ou pedra mármore?

Este post irá auto-destruir-se depois de ler.

Cliente vem à livraria [ponto] Não temos o dito livro [ponto] Sugiro-lhe uma encomenda [ponto]

Eu: Em que nome fica o pedido?

Cliente: Não posso dizer-lhe, sou um espião secreto à paisana.

Reparem no brilharete: não é um mero espiãozeco… é um espião secreto à paisana! Hesito. Ora se é secreto e está à paisana, isso quer dizer exactamente o quê? Fiquei confusa, vá-se lá perceber essa espécie muy rara que são os espiões. E agora que se desmascarou, vai ter de matar-me, não é? É melhor avisá-lo que este objecto que tenho na mão, com a vulgar aparência de uma caneta Bic, é na verdade uma temível bazuca assassina. Be afraid, be very afraid…

Na idílica Livraria do Inferno a vida é muito mais divertida.

Take I

Eu, de joelhos, a vasculhar freneticamente a última prateleira de uma estante. A cliente, ao meu lado, aguarda pacientemente.

Nisto, uma senhora muito apressada aparece subitamente nas minhas costas: “Olhe lá, tá ocupada?! Quero o livro do Gustavo Santos!”

O que eu digo: “Bom dia. Pois, agora estou a atender esta senhora, tem de aguardar um momento.”

O que eu diria na idílica Livraria do Inferno: “Ocupada, eu? Claro que não, que disparate! Só estava aqui de rabo para o ar debaixo da estante porque o meu psiquiatra sugeriu que era muito terapêutico. Esta senhora que aqui está ao lado, como  não tem nada que fazer da vida, decidiu ficar aqui a observar-me porque, secretamente, acha que eu sou extremamente sensual.”

Take II

Acabo de informar uma cliente que o livro que quer se encontra esgotado na editora. Indignada e a cuspir perdigotos em todas as direcções e a alta velocidade, diz: “Esgotado? Esgotado?! Mas como é possível?! E agora o que é que eu faço?!”

O que eu digo: “Visite alguns alfarrabistas, talvez consiga encontrar.”

O que eu diria na idílica Livraria do Inferno:: “Olhe, tome uma caixa de Xanax, dizem que faz maravilhas. Se não funcionar, atire-se de um abismo. Acaba com esse sofrimento rápido, rápido…

Take III

Cliente habitual, mal disposto como habitual, pede um livro do qual já não temos stock.

Eu: “De momento, não temos. Podemos encomendar se qui…”

Cliente: “Não quero nada! Vocês nunca têm nada do que eu quero, nada! Vocês são uma porcaria, como sempre.”

O que eu digo: “Pois, lamento que pense assim. Obrigada, tenha um bom dia.”

O que eu diria na idílica Livraria do Inferno: “Então, se nunca temos o que quer e você vem cá todos os dias à mesma, o que é que isso faz de si? Hum, diga lá?”

Take IV

Cliente: “Olhe, queria um livro para oferecer a um senhor de 56 anos.”

Eu: “O que é que a pessoa costuma ler? Algum autor em particular?”

Cliente: “Não sei.”

Eu: “… e a pessoa em questão, tem algum interesse que conheça? História, política…?”

Cliente (como se eu estivesse a fazer-me difícil): “Oh! Sei lá! Mal o conheço. Só sei que vai fazer 56 anos. Não têm nenhuma sugestão?”

O que eu digo: “Bom, vamos ver aqui algumas opções nos best-sellers, sim?”

O que eu diria na idílica Livraria do Inferno: “Infelizmente, apesar de todas as proveitosas referências que me deu… não! Não me ocorre nada. Mas para não sair daqui de mãos a abanar, vou dar-lhe uma sugestão: faça-lhe um £*%&$#. Vai ver que ele não vai ficar decepcionado!”

Do encanto das crianças

Desengane-se quem procure neste título algum tipo de ironia.

E recomponha-se prontamente da desilusão, pois nas próximas linhas delinearei prova de honestidade na escolha, bem como o testemunho da sua veracidade.

Era uma tarde de sol (embora por falta de qualquer vislumbre de paisagem ou aragem naturais eu não o soubesse) e a livraria fervilhava de gloriosas famílias em busca de emoção e entretenimento.

E, devido à forte afluência, era imperativo tentar repor e manter a ordem dos livros que as trupes ávidas de distracção iam tornando em absoluto e inultrapassável caos. Estava disposta a tudo para me manter concentrada nessa tarefa, quando fui interrompida por uma voz estridente de criança:

“- Meninaaa…”

Olhei para trás, junto a mim estava um rapazinho (com não mais do que 3 anos) que decidido se aproximou ainda mais e, chamando a minha atenção, bradou irresistivelmente alegre enquanto, esticando o braço, apontava com o dedo indicador para o expositor que agora estava imediatamente em frente:

“-Também estou a arrumar!”

Os seus olhos brilhavam, ansiando a minha reacção. Imediatamente o meu olhar se dirigiu para o local em causa. O meu espanto foi também imediato: as prateleiras estavam agora completamente vazias, os livros tinham sido cuidadosamente deslocados para o expositor ao lado, e sobrepostos aos que por lá tentavam habitar, em paz e conforto…

Ri, inevitavelmente, e soltei um alegre “Obrigada!”

O rapazinho sorriu, contente, e eu, tentando não prolongar o riso para não ofender o seu louvável esforço, afastei-me. Tinha apenas dado dois passos quando ouvi a mesma voz, desta vez ainda mais audível, orgulhosa do seu feito, tornar para alguém e bradar:

“-Eu ajudei a menina!…”

Voltei-me discretamente, a notícia era dirigida ao (penso eu) pai, uma figura imponente que estava a poucos metros de distância e virado para a cena, sentado (ou agachado) num dos bancos de criança, que desaparecera debaixo dele, com os cotovelos apoiados nos joelhos e a cabeça pendendo sobre os mãos, o que lhe dava a impressão de estar profundamente entediado. Não teve qualquer reacção nem demonstrou qualquer interesse pelo assunto. E embora esse facto não me tivesse particularmente surpreendido, despertou em mim algo parecido com uma pequena revolta, como uma silenciosa sede de justiça, que rapidamente aplaquei ao constatar a desordem que de novo se apoderara da área.

Aproveitando um momento de distracção do rapaz, que se virara de costas explorando as páginas de um qualquer livro, restitui os livros de volta às suas prateleiras e compus silenciosamente o expositor. Retomei as minhas tarefas no local onde estava antes de ser interrompida, e de novo a mesma voz, a mesma entoação atrevida:

“-Meninaaa…”

Desta vez nem precisei de olhar, respondi ao pequeno que se encontrava já ao meu lado e à minha altura (pois nesse momento eu apanhava alguns livros caídos).

“-Diz…”, disse eu, enquanto os recolhia.

Colou-se ao meu braço direito, espreitou o livro que eu segurava e inquiriu, interessado:

“- Olha, por que é que não pões esse aqui? Esse não está…”

 Olhei o expositor em causa. De facto, o livro não estava visível, encontrava-se misturado com outro título da mesma colecção. Sorri e expliquei atenta e eficazmente ao exigente inquiridor. Mostrei-lhe onde residia o mistério do problema:

“-Vês? Estão misturados.”

Repetiu as minhas palavras num tom suave e interessado:

“-Estão misturados…”

Nesse momento olhei na direcção do pai, que continuava imóvel, observando. Olhou-me, triunfante. Algo no seu profundo silêncio, no seu ar desafiante parecia conspirar: “Vamos ver como se sai a pequena operária quando confrontada pelo meu petiz à solta…”

E vi claramente nesse intento a execução extremosa de um novo método, de uma nova disciplina parental das classes de bem, baseada em deixar à guarda da liberdade a prol invicta, incentivada a demonstrar o seu interesse pela classe obreira, em suma, para importunar à sua vontade. Como se “largar à solta” fosse um bravo exercício de amadurecimento. Ou uma espécie de tour educacional concedida pro bono pelos subalternos incautos, uma visita ao exótico zoo das tarefas laborais, como uma guloseima oferecida em tenra idade antes da hora forçada de crescer e abandonar para sempre a realidade em busca de um salário milionário. O seu olhar orgulhoso, sério e impassível expressava uma ambição de tom bíblico, parecia bradar ao seu pequeno, aos pequenos do mundo inteiro:

“Ide, e vede como vivem essas estranhas espécies fora do nosso alcance, e as intrincadas artes dos seus ofícios, testemos os ocultos caprichos das suas vis naturezas ordeiras, meticulosas e mal remuneradas. E depois esquecei tudo, pois eis que vos encaminho para o vosso bravo futuro de gestores comerciais, e nunca vós precisareis de fazer nada assim.”

E naquele momento, fui conquistada pelo encanto das crianças, e quis que aquele rapazinho espevitado permanecesse assim, imutável, ao meu lado, provocando a sua desordem cuidadoso e empenhado… e preferi qualquer coisa a vê-lo partir rumo a esse outro trilho feito de ignorância e escuridão.

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O próximo grande best-seller.

Cliente – “Onde é que posso procurar livros sobre fraude fiscal?”

Eu – “Queria do ponto de vista da legislação em vigor ou um manual de fiscalidade sobre esse assunto?”

Cliente – “Não, não. O que eu quero é um livro sobre evasão fiscal, offshores, braqueamento de capitais… ’tá a ver?”

Eu – “Bom… existe um livro do Rui Miguel Marques sobre esse assunto, “Fraude Fiscal e Branqueamento de Capitais”. É essencialmente um manual dirigido aos técnicos de fiscalidade, aqui na descrição diz que trata das técnicas de identificação e combate à fraude f….”

Cliente – “Pois, mas o que eu quero é um que explique como fazer, percebe? Fugir ao fisco, por exemplo, ’tá a ver?”

……..como é que ainda ninguém se lembrou disto?!

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quando queremos rir e não podemos……

Galito Edições

Qualquer livreiro, até  com apenas um dia de casa, depara-se com “invenções” altamente criativas por parte da clientela. Uma delas passa por “criar” novas editoras ou, se não quisermos ser demasiado cruéis, “embelezar” as já existentes.  Ora vejamos:

-“Bom dia! queria um livro de apoio escolar para o meu filho que vai para o 3ª ano.”

-“Alguma preferência de editora?”

-“Não, não! uma qualquer. Sabe qual é a melhor?”

– ” São todas muito semelhantes, mas olhe, esta colecção é muito recomendada.”

-“Ah! esta é da Galito! o meu filho teve esta o ano passado! pois é , da Galito!”

Continua o senhor, muito simpático, a repetir com veemência que era da Galito. E eu, não o corrigi e achei muito castiça a possíbilidade de haver uma editora assim….

Uns minutos depois passa por mim e, para despedida, diz-me: -“Muito obrigado! é mesmo está da Galito. Vou  levar!”

E lá seguiu o seu caminho, feliz pela ” contribuição”, mesmo sem o saber, para o mundo editorial português….

Será que algum dia o senhor vai perceber, olhando para o respectivo manual,  que a editora se chama “Gailivro”‘?…….

Não só de clientes se faz o belo baú da chacota.

Ligam de outra loja e dizem:

O.Lj – “Olá, podes confirmar se tens aí um livro?”

Eu – “Claro, qual é o livro?”

O. Lj – “É melhor dar-te a referência para veres primeiro no computador…”

Eu – “Não é preciso. Diz lá, qual é livro?”

O. Lj – “É um nome esquisito, em estrangeiro, é mesmo melhor veres no computador…”

Eu – “Ok, diz lá então”.

Nisto, imagino um título em russo ou dinamarquês, o que também não faz sentido porque não temos disso. Enquanto estou perdida nestes pensamentos ela começa a soletrar.

O. Lj – “F…A…R…E…N…”

Eu – “Farenheit 451………?”

O. Lj – “É isso! Ah, então é assim que se lê isto!! Como é que sabias?!”

Cara amiga, para resolver este seu mistério e acalmar a sua alma atormentada vou dizer-lhe que tenho dons mediúnicos. Poderosos dons mediúnicos…..uhhhhhhh….

Os 3 poderes magníficos dos livreiros.

1º – Olho de lince: este é um dos poderes mais reconhecidos pelos nossos clientes. Exemplo:

Cliente – “Disse-me que encontrava o livro aqui mas não vejo nada!”

Eu – “Está aqui, vê? Exactamente no sítio que lhe indiquei.”

Cliente – “Ahh! Tem razão! realmente vocês têm os olhos muito treinados!”

Sim. Todos os livreiros são treinados intensamente na infância. O treino dura vários meses, por ciclos interrompidos, até ao máximo de 4 anos. Os comuns mortais apelidam esta habilidade de Instrução Primária, vulgo aprender a ler.

2º – Telepatia – um dos poderes mais solicitados, é a habilidade mais impressionante dos livreiros. Exemplo:

Cliente – “Queria aquele livro novo, é de um escritor, é sobre uns assuntos… aquele que eu ando à procura já há uns dias, não tá a ver qual é?”

Eu – “Ora… hmmm, deixe-me ver… hmmm… claro, então não. É para já.”

3º – Futurologia – esta é uma arte requintada e apenas acessível ao livreiro mais experiente. Exemplo:

Cliente – “Não tem o livro novo do Alain de Botton?”

Eu – “O Religião para Ateus? Sim, aguarde um momento, vou busc…”

Cliente – “Não! Não é esse. Isso eu já comprei, não tem nada mais recente dele?”

Eu – “Não, de facto, não há nada mais recente…”

Cliente – “Mas ele não vai escrever mais nada?! Não sabe se ele vai publicar mais nada!?”

Oh, apanhou-me! Claro que sei, mas não faço intenção de contar-lhe. Os livreiros são todos uns invejosos, não gostam de partilhar nada com ninguém.

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